Em meio a um turbilhão de especulações sobre o futuro da direita brasileira, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), confirmou que visitará o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na próxima segunda-feira (29), em Brasília. A visita, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ocorre em um momento crucial e, embora Tarcísio a classifique como um encontro pessoal com um “amigo”, ela é vista nos bastidores como um movimento fundamental no tabuleiro de xadrez para as eleições de 2026.
A principal pauta que paira sobre o encontro é a sucessão de Bolsonaro. Tarcísio nega veementemente que já tenha recebido o “aval” de seu padrinho político para ser o Tarcísio candidato a presidente, e insiste que seu projeto é a reeleição para o governo de São Paulo. No entanto, com Bolsonaro condenado e inelegível, o governador paulista é a aposta unânime de aliados e até de líderes do Centrão para liderar a oposição e enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A Visita a um “Amigo”: O Discurso Oficial de Tarcísio
Em declarações à imprensa na quinta-feira (25), durante um evento em Guarulhos, Tarcísio de Freitas fez questão de minimizar o caráter político do encontro e enfatizar a dimensão pessoal e de lealdade.
“Preocupação e Consideração” com o Padrinho Político
“Vou visitar um amigo e prestar solidariedade a ele”, afirmou o governador. Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília após ser condenado pelo STF no julgamento sobre a trama golpista. “É uma coisa que eu vou fazer sempre porque tenho preocupação e consideração com uma pessoa que sempre foi muito importante para mim”, completou Tarcísio, reforçando os laços de gratidão com o presidente que o projetou nacionalmente como ministro da Infraestrutura.
Reafirmando a Candidatura à Reeleição
Diante das crescentes pressões, tanto da esquerda quanto de alas do próprio bolsonarismo que desejam definições, Tarcísio foi categórico ao rechaçar a ideia de que a sucessão presidencial já está decidida. Ele negou que Bolsonaro “tenha dado aval nenhum” a uma eventual candidatura sua ao Palácio do Planalto. “E eu sou candidato à reeleição. Não tem nada disso”, emendou o governador.
Os Bastidores Fervem: Por que Todos Falam de “Tarcísio Candidato a Presidente”?
Apesar das negativas de Tarcísio, a especulação em torno de seu nome não é infundada e se baseia em uma leitura pragmática do cenário político.
O Sucessor Natural
Com Jair Bolsonaro condenado e inelegível até 2030, a direita brasileira busca um nome com capital político, capacidade de gestão e trânsito entre diferentes setores para unificar o campo conservador. Tarcísio de Freitas, eleito para o governo do estado mais poderoso da federação com apoio massivo de Bolsonaro, é visto como o herdeiro natural desse espólio político. O próprio governador já indicou que só aceitaria concorrer com a autorização explícita de seu padrinho político.
O Endosso do Centrão
Além do apoio da base bolsonarista, o nome de Tarcísio também é endossado por líderes de partidos do Centrão. Eles consideram que o governador teria o perfil técnico e moderado necessário para atrair eleitores de centro e ser o “adversário mais competitivo para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.
O “Aval” de Bolsonaro: A Negativa da Família e o Jogo de Sinais
A recente onda de especulações foi turbinada por uma coluna do portal Metrópoles, que noticiou que o acordo entre Bolsonaro e Tarcísio já estaria “costurado”, faltando apenas definir o momento do anúncio. A notícia provocou uma reação imediata da família Bolsonaro, que buscou controlar a narrativa.
O “Afago” de Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou seu perfil na rede social X para negar que um apoio a Tarcísio esteja “fechado”. No entanto, sua mensagem foi um primor de sinalização política. Ao mesmo tempo em que negava o acordo, ele “afagou” o governador, cobrindo-o de elogios. “Tarcísio, além de amigo, é uma pessoa preparadíssima, competente e não precisa ficar provando nada a ninguém toda hora, em especial sobre sua lealdade a Bolsonaro”, escreveu.
Flávio concluiu com uma mensagem de união que deixou todas as portas abertas: “Não conseguirão separá-lo de Bolsonaro e tenham a convicção de que estaremos juntos em 2026, para desespero da extrema esquerda”.
A Reação de Carlos Bolsonaro
O vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), por sua vez, foi mais direto e econômico nas palavras, declarando que não ouviu “nada disso” sobre o suposto acordo. As manifestações dos filhos mostram um esforço para manter o controle do capital político de Bolsonaro, garantindo que qualquer decisão sobre 2026 passe, inevitavelmente, pelo patriarca da família.
A Sombra da Anistia e o Silêncio Estratégico
Um tema que certamente estará presente, ainda que de forma velada, na conversa de segunda-feira é o projeto de anistia que tramita no Congresso. Tarcísio esteve em Brasília no início do mês para articular apoio à proposta. Questionado se voltaria a tratar do assunto em sua nova visita à capital, o governador evitou comentar, em um silêncio estratégico que indica que a pauta continua sendo uma prioridade para o grupo.
Entre a Lealdade e a Estratégia, o Jogo de 2026 Já Começou
Tarcísio de Freitas executa um delicado balé político. Ele precisa, a todo momento, reafirmar sua lealdade a Jair Bolsonaro para não perder o apoio da base mais fiel, ao mesmo tempo em que governa São Paulo e se projeta como uma figura com autonomia. A especulação sobre Tarcísio candidato a presidente não vai diminuir, e cada gesto seu será minuciosamente analisado. A visita de segunda-feira, portanto, é muito mais do que um encontro entre amigos: é um capítulo decisivo na longa e complexa novela da sucessão na direita brasileira.