‘Se tiver filho meu envolvido, será investigado’, diz Lula sobre fraudes no INSS foi a declaração enfática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao comentar a nova fase da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal, que apura um amplo esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A fala ocorreu durante um café da manhã com jornalistas, no Palácio do Planalto, nesta quinta-feira (18), em meio à repercussão das investigações que já apontam prejuízos estimados em até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
O pronunciamento do presidente veio após questionamentos sobre a citação do nome de seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em mensagens analisadas no âmbito da operação. Lula adotou um tom firme ao afirmar que não haverá qualquer tipo de proteção política, familiar ou institucional a eventuais envolvidos no esquema, reforçando o discurso de que as investigações devem alcançar todos os responsáveis, independentemente de cargos ou vínculos pessoais.
“É importante ter seriedade e investigar todas as pessoas envolvidas. Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu envolvido nisso, ele será investigado”, declarou o presidente, acrescentando que o governo federal dará total apoio às apurações conduzidas pela Polícia Federal e pelos órgãos de controle.
Operação Sem Desconto avança e amplia alcance das investigações
A nova fase da Operação Sem Desconto representa um avanço significativo nas apurações sobre um esquema nacional que teria operado por anos a partir de associações e entidades que descontavam mensalidades diretamente dos benefícios previdenciários sem autorização dos segurados. A prática atingiu aposentados e pensionistas em diversos estados do país, muitos deles pessoas idosas e de baixa renda, que só perceberam os descontos após meses ou até anos.
Nesta etapa, a Polícia Federal cumpriu 52 mandados de busca e apreensão, 16 mandados de prisão preventiva e diversas medidas cautelares em seis estados e no Distrito Federal. A ação conta com o apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), que atua no levantamento de danos ao erário e na identificação de falhas administrativas que permitiram a continuidade do esquema.
Segundo os investigadores, o modus operandi envolvia a simulação de filiações a associações, muitas vezes sem qualquer consentimento dos beneficiários, permitindo o desconto automático diretamente na folha de pagamento do INSS. Ao menos onze entidades tiveram seus contratos suspensos por decisão judicial.
Decisão do STF e quebra de sigilo
A atual fase da operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que também determinou a retirada do sigilo da decisão. Com isso, detalhes relevantes das investigações vieram a público, ampliando a repercussão política e institucional do caso.
De acordo com o despacho, a Polícia Federal identificou cinco transferências no valor de R$ 300 mil cada, totalizando R$ 1,5 milhão, realizadas pela empresa Brasília Consultoria Empresarial S/A, ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, para a empresa RL Consultoria e Intermediações Ltda., pertencente a Roberta Moreira Luchsinger, também investigada.
As movimentações financeiras são tratadas como indícios relevantes de lavagem de dinheiro e financiamento do esquema, e integram um conjunto mais amplo de provas reunidas pela PF ao longo da investigação.
Mensagens, suspeitas e citações indiretas
Entre os elementos analisados pela Polícia Federal estão mensagens apreendidas em celulares e outros dispositivos eletrônicos. Em um dos diálogos, o Careca do INSS menciona que um dos repasses financeiros seria destinado a “o filho do rapaz”. A decisão judicial, no entanto, não esclarece a quem exatamente a frase se refere, o que abriu espaço para especulações e questionamentos públicos.
Em outro trecho das conversas, Roberta Moreira Luchsinger demonstra preocupação após a apreensão de um envelope com o nome de um terceiro durante buscas anteriores. Ela orienta o operador do esquema a descartar aparelhos telefônicos utilizados nas comunicações, atitude que, segundo investigadores, pode indicar tentativa de obstrução de Justiça.
Apesar da repercussão, não há, até o momento, qualquer imputação formal contra familiares do presidente da República. Ainda assim, Lula fez questão de frisar que ninguém estará acima da lei.
Prisões e medidas cautelares atingem familiares de investigados
Nesta fase da Operação Sem Desconto, a Polícia Federal prendeu Romeu Carvalho Antunes, filho de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como um dos principais operadores do esquema. Também foi preso Eric Fidélis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS, André Fidélis, o que reforça a tese de que o esquema possuía ramificações familiares e institucionais.
Além das prisões, o ministro André Mendonça determinou a prisão domiciliar de Adroaldo Portal, então secretário-executivo do Ministério da Previdência. Ele foi exonerado do cargo logo após a deflagração da operação, em mais um desdobramento que ampliou a crise política no setor previdenciário.
Pedido de prisão de senador e reação da PGR
As investigações também alcançaram o meio político. A Polícia Federal chegou a solicitar a prisão do senador Weverton Rocha (PDT-MA), apontado como possível beneficiário dos desvios e sustentáculo político do grupo investigado. A Procuradoria-Geral da República (PGR), no entanto, se manifestou contra a prisão, e o parlamentar acabou sendo alvo apenas de mandado de busca e apreensão.
Em nota, Weverton Rocha afirmou ter recebido a ação “com surpresa” e declarou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. O caso segue sob análise das instâncias competentes.
Impacto político e queda no Ministério da Previdência
A crise provocada pela Operação Sem Desconto teve reflexos diretos na estrutura do governo federal. O então ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), deixou o cargo em meio à pressão política e institucional gerada pelo avanço das investigações. Para o seu lugar, foi nomeado Wolney Queiroz, que ocupava a função de secretário-executivo da pasta.
A troca no comando do ministério foi interpretada por aliados do governo como uma tentativa de reforçar o discurso de responsabilidade e compromisso com a apuração dos fatos, além de promover ajustes administrativos para evitar a repetição de práticas irregulares.
Lula reforça discurso de combate à corrupção
Ao comentar o caso, Lula reiterou que o governo federal não irá interferir nas investigações e que todos os envolvidos serão responsabilizados, caso as acusações sejam confirmadas. O presidente afirmou que práticas como as reveladas pela Operação Sem Desconto ferem diretamente os princípios do Estado e atingem uma parcela vulnerável da população.
Segundo ele, o combate à corrupção e à fraude no sistema previdenciário é uma prioridade, não apenas pelo impacto financeiro, mas pelo dano social causado aos aposentados e pensionistas, que dependem do benefício para sua sobrevivência.
Fraudes no INSS e os desafios do controle
Especialistas ouvidos ao longo das investigações apontam que o caso evidencia fragilidades históricas nos mecanismos de controle do INSS, especialmente no que diz respeito à autorização de descontos associativos. A digitalização de processos, a ampliação do cruzamento de dados e o fortalecimento de auditorias internas são apontados como medidas fundamentais para evitar novos escândalos.
A CGU, por sua vez, informou que segue trabalhando na identificação de falhas administrativas e na proposição de mudanças estruturais para aumentar a transparência e a segurança do sistema.
Repercussão nacional e próximos passos
A declaração de Lula e os desdobramentos da Operação Sem Desconto tiveram ampla repercussão nacional, dominando o noticiário político e econômico. O caso segue em investigação, e novas fases da operação não estão descartadas, à medida que a Polícia Federal analisa documentos, transações financeiras e depoimentos.
A expectativa é de que, com a conclusão das apurações, o Ministério Público apresente denúncias formais contra os responsáveis, levando o caso ao Judiciário. Até lá, o governo afirma que seguirá colaborando integralmente com as autoridades.
Transparência e confiança pública em jogo
O episódio coloca em evidência a importância da transparência na gestão pública e da confiança da população nas instituições. Para milhões de brasileiros que dependem do INSS, a revelação de um esquema de tamanha dimensão gera indignação e insegurança.
Ao afirmar que “se tiver filho meu envolvido, será investigado”, Lula buscou sinalizar um compromisso público com a imparcialidade das investigações, em um momento em que o governo enfrenta o desafio de preservar sua credibilidade e demonstrar tolerância zero com irregularidades.