A mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta semana, revela um retrato complexo e dividido do Brasil, com a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estagnada. Após um período de recuperação de imagem impulsionado pela resposta do governo à crise do “tarifaço” de Trump em julho, os números agora mostram uma aprovação de 46% para o presidente, enquanto 51% desaprovam seu mandato.
Contudo, um mergulho mais profundo nos dados da pesquisa revela a história por trás dos números gerais: a base de sustentação da popularidade de Lula está firmemente ancorada nos beneficiários de programas sociais, especialmente o Bolsa Família. A análise da aprovação de Lula e o Bolsa Família mostra um abismo entre a percepção de quem recebe auxílio do governo e a de quem não recebe, evidenciando como as políticas sociais se tornaram o principal pilar de capital político para os governantes no Brasil.
O Retrato da Opinião Pública: Números Gerais da Pesquisa Genial/Quaest
A palavra que define o cenário atual da popularidade presidencial é “estagnada”. O governo, que vinha em uma trajetória de alta, encontrou um teto, com a maioria da população (51%) expressando desaprovação. Esse quadro geral, no entanto, esconde realidades muito distintas quando os dados são estratificados.
A Base Fiel: O Impacto Decisivo do Bolsa Família na Aprovação de Lula
O dado mais revelador da pesquisa Genial/Quaest é o recorte por faixas de renda e, mais especificamente, por beneficiários de programas sociais. É aqui que se encontra o núcleo da aprovação do governo.
Um Abismo nos Números
A diferença de percepção entre os dois grupos é gritante e ajuda a explicar a polarização do país:
- Entre os beneficiários do Bolsa Família: A aprovação de Lula dispara para 64%, contra apenas 32% de desaprovação.
- Entre os que não recebem benefícios governamentais: O cenário se inverte drasticamente, com 55% desaprovando o governo Lula III.
Esses números demonstram que, enquanto o governo enfrenta forte resistência em segmentos da classe média e de maior renda, ele mantém um apoio sólido e majoritário entre a população mais pobre e que depende diretamente da rede de proteção social do Estado.
A Força dos Programas Sociais
Um dos fatores que ajudam a explicar essa alta aprovação na base da pirâmide é a contínua aposta do governo em propostas de forte apelo social. A percepção positiva é alimentada por anúncios e projetos que impactam diretamente a vida dessa população, como:
- A proposta de elevar o teto de renda do Minha Casa, Minha Vida, permitindo que mais famílias de baixa renda possam acessar o financiamento da casa própria.
- O anúncio de um novo vale gás para mais de 60 milhões de pessoas, atacando um dos pontos mais sensíveis do orçamento doméstico.
- A criação de linhas de crédito para reformas de casas e para financiar a compra de motocicletas, que são um importante instrumento de trabalho e transporte para a população de menor renda.
O Universo de 94 Milhões: A Dimensão da Dependência Social no Brasil
Para entender a relevância política da aprovação de Lula e o Bolsa Família, é preciso compreender a escala dos programas sociais no país. Atualmente, mais de 94 milhões de brasileiros dependem de algum tipo de programa social federal.
Esse número, equivalente a “quase duas Argentinas”, mostra o tamanho da população que tem sua vida diretamente impactada pelas decisões do governo federal. Dentro desse universo, o Bolsa Família, concentrado no Cadastro Único, é o carro-chefe, abrigando 57% de todos os beneficiários.
Um Fenômeno Bipartidário: A Relação entre Auxílios e Popularidade Não é Exclusiva do PT
A forte correlação entre o recebimento de auxílios e a aprovação do governante de plantão não é um fenômeno novo ou exclusivo do PT. Embora tenha sido derrotado em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro também se beneficiou de uma estratégia semelhante.
A Experiência de Bolsonaro com o Auxílio Brasil
Em março de 2022, em plena pré-campanha eleitoral, Bolsonaro viu sua reprovação cair de 45% para 23% entre os beneficiários do Auxílio Brasil, programa social criado em seu governo para substituir o Bolsa Família. O pagamento de um benefício mais robusto na época foi crucial para melhorar a imagem do então presidente junto à população mais pobre, mostrando que a lealdade do eleitorado de baixa renda está frequentemente atrelada à percepção de quem está, de fato, garantindo o suporte do Estado.
O Desafio de Governar um Brasil Dividido
A pesquisa Genial/Quaest joga luz sobre o grande desafio da governabilidade no Brasil contemporâneo. A forte ligação entre a aprovação de Lula e o Bolsa Família demonstra que a política social é, hoje, a principal ferramenta de sustentação política de um governo. A lealdade de quase 100 milhões de brasileiros que dependem de programas federais é um capital político imenso e decisivo em qualquer eleição.
O desafio para o presidente Lula, e para qualquer futuro governante, é duplo: de um lado, é preciso manter e aprimorar os programas que garantem o apoio dessa base massiva e vulnerável. Do outro, é necessário encontrar formas de dialogar e construir pontes com a outra metade do país, que não depende diretamente desses benefícios e que, no momento, majoritariamente desaprova os rumos do governo. Governar para um só grupo pode garantir uma base fiel, mas a estabilidade e o progresso do país dependem da capacidade de construir um projeto que faça sentido para todos os brasileiros.