O município de Canudos, 413Km de Salvador, e hoje com uma população de quase 17 mil pessoas, entrou com uma Ação Popular contra a União, para obter indenização e reparação de todos os danos morais, materiais, psicológicos, físicos e estruturais sofridos pelos mártires de Canudos e canudenses, em virtude do massacre entre os anos de 1896 e 1897. Uma Audiência Pública foi realizada na cidade, nesta terça-feira (22).
Em sua defesa, município, descentes e população de Canudos deixa claro que a história deixou marcada um grande equívoco em sua interpretação ao chamar de guerra o que se caracterizou como um genocídio, o massacre e extermínio de um povo. Tudo isso, com ordens da então República que atingiu um povo sofrido e repercute até os dias atuais. O conflito sangrento, deixou sua marca na comunidade de Belo Monte, no sertão da Bahia, hoje conhecida como Canudos.
Paulo Menezes, advogado à frente da Ação ressalta que o prefeito Jilson Cardoso de Macedo, junto com a sociedade de Canudos e descendentes daqueles que participaram do registro histórico decidiram entrar com uma Ação Popular contra a União em virtude de busca da reparação por todos os danos sofridos.
“O objetivo dessa ação é que haja o pagamento pelos danos causados o que é mais que merecido. Aqui não houve uma guerra, houve sim um massacre, um genocídio e é hora de o Governo Federal, através do presidente Lula suprir as necessidades dos moradores da atual Canudos”, afirmou.
De acordo com o advogado, o valor estimado da Ação Popular é de R$ 300 milhões além de pedidos para pagamento de um salário mínimo aos descendentes que estudam em instituições e ensino técnico ou superior, daqueles que foram massacrados em Canudos.
Um deles é Edmilson Ferreira de Oliveira, que é bisneto de S. Pedrão que fez parte daquele momento histórico. E sua opinião, essa ação civil pública traz para todos uma esperança reparação que não é apenas material, mas social e moral. Ele diz que é um momento importante para o povo de Canudos, que passou por momentos difíceis no processo da resistência, que lutou bastante e resistiu até onde pôde.
“O governo à época, a então República infelizmente, passou por cima de tudo e de todos. Meu bisavô Pedrão, por exemplo, passou por todo aquele sofrimento e foi um dos sobreviventes do massacre, vindo a falecer em Canudos no ano de 1958, após ter passado um tempo fora daqui, mas ter retornado, vindo a morar na localidade de Pombinha Branca. Ele foi o primeiro corpo a ser sepultado no Cemitério de Canudos e não há até hoje nem um mausoléu ou algo semelhante que represente e marque o local em sua homenagem”, relata Edmilson.
Ele, assim como muitos outros esperam que essa reparação seja feita, que a luta e a resistência daquele que povo que tanto sofreu e que buscou uma sociedade igualitária e justa, sejam identificadas, reconhecidas e reparadas.
O prefeito Jilson Cardoso Macedo agradeceu à população, peça fundamental para que a Ação Pública Popular fosse movida, às pessoas do governo, bem como aos representantes de sindicatos que estiveram presentes. Segundo ele, esse é um ato de extrema importância para o município e o povo de Canudos, já que há mais de 100 anos a cidade foi dizimada e já está em sua terceira cidade reconstruída.
“Com nossos esforços vamos reconstruindo nossa Canudos, nossa história, e esse é o momento de a União entrar com essa contrapartida. Tenho plena convicção de quando esse pleito chegar às instâncias do Governo Federal, da Justiça Federal, Canudos terá a grande oportunidade de ver os descendentes de Antônio Conselheiro tendo o sonho de uma cidade melhor”, afirma o prefeito.
Jilson Macedo disse ainda que nada é mais justo que o município como representante do Poder Executivo, possa falar em nome de todo o povo canudense. “Acredito muito no andamento na ação movida e agradeço a todos que se empenharam para que esse momento se tornasse uma realidade. Estamos realmente confiantes e esperamos que em breve possamos anunciar resultados positivos para o município e o povo e Canudos”, concluiu.
História
Imortalizada pelo escrito Euclides da Cunha, em sua obra ‘Os Sertões’, a história de Belo Monte foi mostrada como um massacre perpetrado pela República contra uma população composta majoritariamente por camponeses pobres, liderados por Antônio Conselheiro.
O texto da Ação Popular, mostra que a chamada guerra teve início com base em meros boatos, propagados pelo juiz de direito de Juazeiro, Arlindo Leoni, de que os habitantes de Canudos, sob a liderança de Antônio Conselheiro, planejavam invadir a cidade de Juazeiro, em acerto de contas com um comerciante de madeira que não cumprira um contrato.
E, sem qualquer investigação ou direito de defesa, a República do Brasil, lançou quatro expedições militares contra Canudos. Nas palavras de Euclides da Cunha: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo”. As consequências foram devastadoras para a região. Além das inúmeras mortes e da desnutrição, o conflito deixou marcas profundas na memória coletiva da população local.
Fonte: Ação Popular