Em uma escalada dramática da crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Alexandre de Moraes solicitou formalmente a extradição de Eduardo Tagliaferro, seu ex-assessor, que se mudou para a Itália e ameaça revelar os “bastidores” do gabinete do magistrado. A medida, que transforma uma disputa interna em um caso de cooperação jurídica internacional, foi solicitada após a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciar Tagliaferro na última sexta-feira (22) por uma série de crimes graves, incluindo a tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
A informação, divulgada pela coluna do jornalista Lauro Jardim no jornal O Globo, revela que o pedido já está tramitando entre os ministérios da Justiça e das Relações Exteriores para ser formalizado junto ao governo italiano. O caso expõe uma ferida profunda no coração do poder Judiciário, colocando frente a frente um dos ministros mais poderosos do país e um ex-colaborador próximo, que agora, com o apoio de bolsonaristas, alega ser vítima de perseguição política e se articula para levar suas denúncias ao Parlamento Europeu.
O Pedido de Extradição de Eduardo Tagliaferro: Os Detalhes da Ação
A ação para trazer o ex-assessor de volta ao Brasil foi iniciada pelo próprio ministro Alexandre de Moraes e rapidamente processada pelo governo federal.
O Caminho Oficial
Segundo um ofício do Ministério da Justiça obtido pelo jornal, o pedido de extradição foi encaminhado ao Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) na última quarta-feira, 20 de agosto de 2025. “Informo a Vossa Excelência que o pedido de extradição do Sr. Eduardo de Oliveira Tagliaferro foi encaminhado ao Ministério das Relações Exteriores, em 20 de agosto de 2025, para formalização junto ao Governo da Itália”, diz o documento, que era dirigido ao próprio Alexandre de Moraes. Caberá agora à diplomacia brasileira apresentar o caso às autoridades italianas e aguardar uma decisão da justiça daquele país.
A Denúncia da PGR como Base
A solicitação de extradição de Eduardo Tagliaferro é juridicamente fundamentada em uma denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República na sexta-feira (22). Tagliaferro, que foi assessor de Moraes durante o período em que o ministro presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é acusado de ter agido contra a legitimidade do processo eleitoral e de ter atuado para prejudicar as investigações sobre atos antidemocráticos.
As Graves Acusações: Do que o Ex-Assessor de Moraes é Acusado?
A denúncia da PGR imputa a Eduardo Tagliaferro uma lista de crimes que, somados, pintam o retrato de uma conspiração contra as instituições.
A Lista de Crimes
O ex-assessor está sendo acusado formalmente de:
- Violação de sigilo funcional
- Coação no curso do processo
- Obstrução de investigação de infração penal que envolve organização criminosa
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito
De acordo com a PGR, a investigação apurou que Tagliaferro vazou informações confidenciais às quais teve acesso em função do cargo que ocupava no TSE. O objetivo, segundo a acusação, era obstruir investigações em andamento e favorecer interesses próprios e de terceiros. A gravidade das acusações, especialmente a de atentar contra o Estado Democrático de Direito, é o que justifica um pedido de extradição.
O Contra-Ataque: A Narrativa de Perseguição de Tagliaferro
Do outro lado do Atlântico, Eduardo Tagliaferro constrói uma contra-narrativa, posicionando-se não como um criminoso, mas como uma vítima de perseguição política que agora se tornou uma testemunha-chave contra o sistema.
A Promessa de Revelar os “Bastidores”
No último dia 30 de julho, o ex-assessor usou suas redes sociais para fazer uma ameaça direta ao seu antigo chefe. Ele afirmou que revelaria os bastidores do gabinete do ministro e disse ter “bastante coisa” contra Moraes. No mesmo post, Tagliaferro acusou o ministro de ter “destruído sua vida e de várias pessoas”.
O Apoio Bolsonarista e a Tese da Perseguição
A postura de Tagliaferro lhe garantiu o apoio imediato de grupos bolsonaristas, que há anos travam uma batalha contra o que chamam de “arbitrariedades” de Alexandre de Moraes. O ex-assessor alega ser vítima de uma perseguição política e faz coro a essa narrativa. Sua estratégia agora é internacionalizar o conflito, e ele já prepara uma denúncia formal contra Moraes para ser apresentada ao Parlamento Europeu.
O Contexto da Investigação e a Visão da PGR
O pedido de extradição de Eduardo Tagliaferro não surgiu do nada. Em abril deste ano, a Polícia Federal já o havia indiciado por violação de sigilo funcional com dano à administração pública. A investigação inicial apurava a divulgação de diálogos do ministro com outros servidores do TSE e do STF.
Para o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, a atitude de Tagliaferro se insere em um contexto maior. Gonet afirmou que o ex-assessor vem atuando em conjunto com outros investigados que fugiram do país com o objetivo de “potencializar reações ofensivas contra o legítimo trabalho das autoridades brasileiras responsáveis pelas investigações e ações penais que seguem em curso regular”.
Segundo o PGR, o “alinhamento [de Tagliaferro] com a organização criminosa ficou claro com sua saída do país”. Essa visão reforça a tese da acusação de que o ex-assessor não é um dissidente, mas um integrante de um grupo organizado que atua para desestabilizar as instituições brasileiras.
Um Confronto de Implicações Internacionais
O pedido de extradição de Eduardo Tagliaferro eleva a crise política e judicial brasileira a um novo patamar. O caso agora está nas mãos do governo italiano, que terá de analisar as acusações e decidir se colabora ou não com a justiça brasileira, em um processo que pode levar meses ou até anos.
Independentemente do resultado, o confronto já está instalado. De um lado, um ministro do STF e a PGR acusam um ex-servidor de alta confiança de traição e de crimes contra o Estado. Do outro, um homem que esteve no centro do poder promete expor os segredos de seu antigo chefe, alegando ser vítima de um sistema que ele mesmo ajudou a operar. Este é, sem dúvida, um novo e explosivo capítulo na conturbada história recente do Brasil, cujas consequências ainda são imprevisíveis.