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Estudo do Ipea Revela Paradoxo: Renda de Informais e Autônomos Dispara, mas Ameaça Futuro da Previdência

Estudo do Ipea Revela Paradoxo Renda de Informais e Autônomos Dispara, mas Ameaça Futuro da Previdência

Um estudo aprofundado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou uma das mais significativas transformações no mercado de trabalho brasileiro na última década. No segundo trimestre de 2025, a renda de informais e autônomos não apenas cresceu, mas cresceu em um ritmo muito mais acelerado do que a dos trabalhadores com carteira assinada (CLT). O levantamento mostra que o fosso salarial entre as categorias está diminuindo rapidamente, com os trabalhadores sem carteira atingindo o maior nível de rendimento desde 2012.

No entanto, essa aparente boa notícia esconde um “efeito colateral” perigoso e de longo prazo: a precarização da base de sustentação da Previdência Social. Com o crescimento de trabalhadores de plataforma e o modelo de contribuição do Microempreendedor Individual (MEI), a conta das futuras aposentadorias simplesmente não fecha, criando uma bomba-relógio fiscal que pressiona todo o sistema de proteção social do país.

O Estudo do Ipea: Um Raio-X da Renda do Brasileiro em 2025

A pesquisa do Ipea, que comparou o segundo trimestre de 2025 com o mesmo período de 2024, trouxe números que desafiam a percepção tradicional do mercado de trabalho.

Crescimento Acelerado Fora da CLT

A principal descoberta do estudo está na velocidade do crescimento da renda. Enquanto os trabalhadores formais tiveram um aumento modesto, os informais e autônomos viram seus ganhos dispararem:

  • Salário de CLTs: Crescimento médio de 2,3%.
  • Salário de Autônomos: Crescimento médio de 5,6%.
  • Salário de Informais: Crescimento médio de 6,8%.

A Realidade dos Valores Absolutos

Apesar do crescimento mais rápido, é importante notar que, em valores absolutos, a renda média do trabalhador com carteira assinada ainda é a maior. No segundo trimestre de 2025, os valores médios foram:

  • Renda média de CLTs: R$ 3.171
  • Renda média de Autônomos: R$ 2.955
  • Renda média de Informais: R$ 2.213

Mesmo assim, o valor para os trabalhadores informais representa o maior nível para esta categoria desde 2012, quando a série histórica de dados começou.

O Estreitamento do Fosso: A Mudança Mais Significativa da Última Década

A tendência mais relevante apontada pelo estudo é a rápida convergência dos salários. A tradicional vantagem financeira de ter um emprego formal está diminuindo a passos largos.

Há apenas quatro anos, no segundo trimestre de 2021, o salário médio de um trabalhador com carteira assinada era, em média, 25% superior ao de um trabalhador autônomo. Agora, no segundo trimestre de 2025, essa diferença caiu para apenas 7,3%.

Essa mudança pode ser explicada por uma combinação de fatores, incluindo o crescimento da chamada “gig economy” (economia de plataformas como Uber e iFood), o aumento exponencial no número de MEIs e uma recuperação econômica pós-pandemia que tem sido mais forte no setor de serviços, onde a informalidade e o trabalho autônomo são mais presentes.

O Efeito Colateral: A Conta que Não Fecha na Previdência Social

Por trás da tendência de aumento na renda de informais e autônomos, existe um problema estrutural que ameaça a sustentabilidade do sistema de aposentadorias do Brasil.

A Bomba-Relógio da Falta de Cobertura

O crescimento de plataformas de autônomos, como Uber, iFood e outras, tem uma consequência direta: mais pessoas ficam sem cobertura previdenciária. Esses trabalhadores, em sua maioria, não contribuem para o INSS e, portanto, não têm direito a benefícios como auxílio-doença, licença-maternidade e, o mais grave, não terão direito a receber aposentadoria no futuro, criando uma legião de idosos desassistidos.

O Dilema do MEI: Uma Contribuição Insuficiente

Em paralelo, o modelo do Microempreendedor Individual (MEI), embora seja um sucesso na formalização de pequenos negócios, possui uma falha estrutural em sua contribuição previdenciária. Os MEIs têm direito à aposentadoria, mas o imposto que pagam — apenas 5% do salário mínimo — não é nem de longe o suficiente para cobrir os custos de seus futuros benefícios.

Na prática, cada MEI que se aposenta gera um déficit que precisa ser coberto por todos os outros contribuintes do sistema (trabalhadores CLT, autônomos que pagam alíquotas maiores, empresas, etc.). Com o número de MEIs crescendo a cada ano, essa conta fica cada vez maior.

A “Renúncia Fiscal” de R$ 6,44 Bilhões

Esse desequilíbrio já tem um custo bilionário para os cofres públicos. No fim de 2024, essa “renúncia fiscal” do modelo MEI atingiu R$ 6,44 bilhões, um aumento anual de 24,4%. Esse valor representa o rombo que o modelo gera na arrecadação previdenciária, pressionando ainda mais um sistema que já enfrenta desafios demográficos.

O Futuro do Trabalho no Brasil: Entre a Oportunidade e o Risco

O estudo do Ipea joga luz sobre o grande paradoxo do mercado de trabalho brasileiro.

Por um lado, o crescimento da renda de informais e autônomos pode ser visto como um sinal positivo de dinamismo econômico, maior empreendedorismo e uma redução da desigualdade salarial entre as diferentes formas de trabalho. Para milhões de brasileiros, a flexibilidade e a autonomia são caminhos viáveis e, agora, cada vez mais rentáveis.

Por outro lado, essa mesma tendência está erodindo a base da rede de proteção social que levou décadas para ser construída no Brasil. Sem uma reforma que modernize e adapte o sistema previdenciário a essa nova realidade — talvez com novos modelos de contribuição para trabalhadores de plataforma e uma revisão do modelo do MEI —, o país caminha para um futuro com uma massa de idosos sem aposentadoria e um sistema público cada vez mais pressionado.

O desafio para o Brasil é encontrar um equilíbrio: como incentivar a inovação e a flexibilidade do novo mundo do trabalho sem abrir mão da segurança e da solidariedade que garantem uma velhice digna para todos os seus cidadãos.

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