Parece haver uma maldição na faixa presidencial brasileira. Desde a redemocratização do país, em 1985, ocupar a cadeira mais importante da República se tornou um roteiro de filme com final assustadoramente previsível. A jornada começa com a euforia da vitória e promessas de um futuro redentor, mas, para a maioria, termina em cassação, algemas ou, na melhor das hipóteses, em uma longa e desgastante peregrinação pelos tribunais.
A estatística é implacável e expõe uma fratura profunda em nossa democracia: nos últimos 40 anos, mais de 60% dos presidentes eleitos tiveram algum tipo de condenação na justiça. Dos oito homens e mulheres que governaram o Brasil nesse período, dois foram formalmente destituídos pelo Congresso, dois foram presos e o mais recente condenado a uma pena recorde. Apenas um seleto trio conseguiu entrar e sair do Palácio do Planalto com a reputação juridicamente intacta.
Diante desse cenário, a pergunta se torna inevitável: a maldição está no tecido verde e amarelo da faixa ou na cultura política que a envolve? Se o roteiro se repete com personagens diferentes, talvez o problema não esteja apenas em quem se elege, mas, fundamentalmente, em quem vota.
A Galeria dos Ex-Presidentes: Um Roteiro de Glória e Queda
Olhar para a história recente do Brasil é constatar um padrão de instabilidade e criminalização no mais alto cargo do poder. Dos oito presidentes que tivemos desde o fim do regime militar, apenas três conseguiram encerrar seus mandatos e seguir a vida pública sem enfrentar processos judiciais ou condenações que manchassem seus legados: José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Eles são as exceções que confirmam uma regra dolorosa.
O restante da lista compõe um verdadeiro caso de estudo sobre como arruinar a própria biografia:
- Fernando Collor: Foi o primeiro a cair. Eleito com um discurso de modernidade e caça aos “marajás”, foi destituído por um processo de impeachment em meio a um escândalo de corrupção denunciado pelo próprio irmão.
- Luiz Inácio Lula da Silva: Protagonizou o arco mais complexo da nossa história. De operário a presidente, de presidente a preso na Operação Lava Jato, e de ex-presidiário a presidente novamente, em uma trajetória que personifica as contradições e a polarização do país.
- Dilma Rousseff: A primeira mulher a presidir o Brasil foi destituída por um impeachment sob a acusação de “pedaladas fiscais”, um processo que até hoje divide o país.
- Michel Temer: Deixou a presidência para, pouco depois, ser preso preventivamente, acusado de corrupção.
- Jair Bolsonaro: O mais recente ex-presidente a entrar para a estatística, foi condenado pelo STF a uma pena de 27 anos por sua participação em uma trama golpista.
A cadeira mais importante da República parece ter menos a ver com a grandeza do cargo e mais com a vaidade, a corrupção e a vingança que a cercam.
O Diagnóstico da Maldição: A Culpa é do Tecido ou da Cultura?
A repetição desse padrão sugere que a causa do problema é mais profunda do que a falha de caráter de um ou outro indivíduo. A maldição da faixa presidencial parece estar enraizada na nossa cultura política.
O Poder como Benefício, Não como Serviço
Talvez a raiz de tudo esteja na forma como enxergamos o poder. Tratamos o “ser presidente” como a linha de chegada de uma carreira, um prêmio a ser conquistado, e não como um serviço público a ser prestado. A política, que historicamente era vista como um dever cívico, muitas vezes exercido em paralelo a outras profissões, virou uma carreira profissional em si. E, como em qualquer carreira, busca-se o benefício pessoal, esperando um lucro — seja ele financeiro, de status ou de poder — em troca do voto.
Idolatria de Figuras, Esquecimento de Princípios
Nossa cultura política terceiriza responsabilidades. Em vez de nos apegarmos a princípios sólidos e projetos de país, nós idolatramos figuras. Buscamos o “salvador da pátria”, o líder carismático que resolverá todos os nossos problemas com um gesto de vontade. E há uma tremenda diferença entre seguir um líder e defender um princípio. Líderes falham, se corrompem, decepcionam. Princípios, quando bem estabelecidos, permanecem. Ao elegermos não os mais capacitados, mas os mais performáticos, estamos confundindo carisma com competência.
O Efeito Colateral: A Banalização da Política e a Descrença Corrosiva
Esse ciclo vicioso de escândalos e punições tem um efeito devastador sobre a sociedade: ele corrói a confiança nas instituições e banaliza a própria política.
Quando a Corrupção Deixa de Chocar
Chegamos a um ponto perigoso de anestesia moral. Ler uma manchete sobre o desvio de 10, 20 ou 200 milhões de reais do INSS ou de qualquer outra estatal já não causa o mesmo espanto de antes. A palavra “político” já parece trazer um adjetivo implícito que nem precisa ser escrito para que pensemos nele: “corrupto”. O verdadeiro espanto, hoje, é o contrário: um político passar quatro ou oito anos em um mandato de alto escalão e sair “limpo”.
A Política como Entretenimento: O Circo e o Palhaço
Essa descrença transforma a política em piada, o voto em frustração. O debate público se afasta de decisões racionais e estruturadas para se aproximar de uma paixão irracional, de uma torcida de futebol. A política virou entretenimento. Um entretenimento que engaja e, ao mesmo tempo, aliena. O reels do seu político distrai, o post inflamado no X (antigo Twitter) tira o foco dos problemas reais. Problemas que, em sua maioria, nós mesmos poderíamos ajudar a resolver se chamássemos a responsabilidade para nós. Em todo circo, alguém acaba tendo que ser o palhaço. Cuidado para não ser você.
Quebrando a Maldição: A Responsabilidade está em Nossas Mãos
Se a maldição da faixa presidencial não está no tecido, mas na cultura que a envolve, então a solução também está na cultura. Se os presidentes mudam, mas o roteiro de escândalos e punições se repete, a conclusão é inevitável: o problema não está (apenas) em quem se elege, mas sim em quem vota.
A maldição só será quebrada quando pararmos de tratar a política como um espetáculo e começarmos a tratá-la como a ferramenta mais importante que temos para construir uma sociedade justa. Quando deixarmos de ser uma plateia que aplaude ou vaia e nos tornarmos cidadãos que fiscalizam, cobram e participam. Quando entendermos que o poder não emana de um salvador, mas de cada um de nós. A faixa presidencial só deixará de ser amaldiçoada quando o voto deixar de ser um cheque em branco e se tornar um contrato de responsabilidade mútua.